8.4.22

como decidi ser historiadora

Estava conversando com uma amiga e relembrei os motivos que me levaram a querer ser historiadora. Eu acreditava que cursando História eu saberia melhor como ambientar minhas histórias ficcionais em diferentes contextos, períodos e lugares. Isso seria ótimo para que eu me tornasse uma boa escritora e roteirista. Mas esse é só um dos muitos motivos que fizeram eu tomar essa decisão de cursar História. E eu tenho certeza que ainda existem outros muitos motivos que hoje ainda não enxergo.


Sobre os que eu enxergo: eu também achava que teria a resposta se Deus existe ou não. Eu pensava: "se eu estudar História, eu vou saber se aconteceu ou não isso tudo que a religião me diz". Eu estudava em escola católica, tinha 14 anos na época (ano de 2004), e estava na dúvida se Deus existia ou não. Lembro até que o meu professor de história era católico e isso me fazia achar que provavelmente Deus existia.

Nesse mesmo período, eu estudei os fascismos e o nazismo na escola. Tinha saído o filme “Olga” e o professor levou a gente pra ver no cinema. Eu fiquei intrigadíssima com o tanto de gente que apoiou o nazismo e achei que fazendo história, eu também ia entender como que tanta gente foi a favor de uma coisa como o nazismo e como que levavam a sério aquele homem esbravejando nos discursos. A gente também viu o filme “O Pianista” na escola e eu fiquei muito envolvida com o tema. Queria saber tudo sobre.

O primeiro livro que eu comprei em uma Bienal do Livro, aqui no Rio, foi justamente nesse ano e é um livro com Hitler na capa, chamado “Os ditadores mais perversos da História“. Era ver o Hitler na capa de um livro e eu queria ler, porque eu queria entender. Minha mãe chegou a dizer que as pessoas podiam achar esquisito o meu interesse. Lembro de outros episódios que me intrigaram também, mas o fato é que estes questionamentos durante a minha pré-adolescência e o meu interesse em História me fizeram perceber até bem cedo que eu queria estudar esse negócio.

No Ensino Médio, eu tive pela primeira vez uma professora de História, uma mulher me ensinando aquilo tudo. Eu a tive como modelo, eu pensava “quero ser igual a ela“. Também fiz um trabalho sobre a ditadura chilena, que me deixou muito interessada nas ditaduras na América Latina. Eu estudava em escola técnica voltada para o ensino de química, e o lugar de desprestígio que as ciências humanas ocupavam lá me aborrecia muito. Ali eu cravei: vou mesmo ser professora de história.

Quando terminei o técnico e fui fazer o vestibular, eu já era uma completa apaixonada por História. Quando estava perto do resultado do vestibular sair, meu avô paterno teve um AVC e foi internado no hospital Souza Aguiar, que ficava perto do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Após uma visita ao meu avô, meu pai quis me levar até o Instituto. Acho que a caminhada distraiu ele da dor, sabe? Quando a gente chegou lá, ele disse que era ali que eu ia estudar. Eu concordei. Era ali mesmo.

Eu fui aprovada e lembro até hoje que o dia da minha matrícula foi também o dia do enterro do meu avô. Eu fui direto do enterro do meu avô para o Instituto fazer a matrícula. Lembro até que uns veteranos estavam chamando os calouros para ir ao bar, o tal BDP, o Bar da Praça, na Praça Tiradentes (que eu iria frequentar muito durante a graduação). Eu disse que não ia porque tinha acabado de sair de um enterro. Ficou um climão, mas eu tinha falado normal. Eu acabei rindo disso mais tarde.

Pois bem, fiz o meu bacharelado e minha licenciatura lá, também fiz o meu mestrado no mesmo lugar e hoje continuo ligada ao Instituto, como membro de um núcleo de pesquisa. Diferente do que a Gabriela de 14 anos achava, a gente não aprende na graduação se Deus existe ou não. O nazismo também não virou meu tema de pesquisa, nem as ditaduras militares na América Latina, como eu achava que seria. Mesmo assim, eu imagino que a Gabriela de 14 anos ia olhar para a Gabriela de hoje e ficar bem feliz por ela ter virado historiadora, professora e escritora. Ela ia pensar “UAAAAAU! No futuro eu vou saber se Deus existe!”.

27.6.21

observações sobre Léo Áquilla

Este texto foi originalmente publicado no blog Em Quantos no dia 3 de setembro de 2012.

Léo Áquilla foi um dos participantes da quinta edição do reality show da Record, A Fazenda. Até então eu nunca havia escutado o seu nome - e também nunca havia assistido ao reality. Um breve comentário sobre o programa: É mais interessante e mais elaborado que o Big Brother ao envolver pessoas que vivem no meio artístico e exigir o cumprimento de tarefas com os animais e com a limpeza da casa e do local. Se alguém não cumpre uma tarefa, o grupo todo acaba levando punição. Mas não é do programa que quero falar, então, voltemos ao Léo Áquilla.

Léo Áquilla é uma drag queen. Como disse no programa: "Sou mulher do ano 2000: peito, bunda e piu piu." Tem dois filhos, um natural e um adotivo. E uma história interessante pra contar. E foi o que fez no programa.

Léo falou que apanhava todos os dias na escola, porque era nítido desde criança a sua homossexualidade e, como as demais crianças notavam, ele sofria com isso. Falou que gostar de homens e de se vestir como mulher nunca foi uma escolha sua e sim algo natural. Comentou que o fato de um programa de audiência num canal de TV aberta ter convidado uma travesti para participar do programa já mostra uma mudança de mentalidade nas pessoas. 


Dentro da casa, Léo comentou o fato de que nas suas entrevistas, durante o seu trabalho e os seus shows, ele é sempre muito divertido, animado, engraçado. E que as pessoas dentro da casa, ali no reality, estranhavam o fato dele nao ser assim no dia a dia. Ele explicava que uma coisa é a personagem dele e outra quem ele é como pessoa, e que as pessoas esperam que travestis sejam sempre pessoas que gostam de chamar atenção para si.

Quando criticada sobre a sua postura de "amar todo mundo" dentro do programa, ela disse que isso vem exatamente por ser como é. Isso criou nela uma cobrança extrema para sempre agradar as pessoas, para que as pessoas gostassem sempre dela, porque lógico, sempre esteve acostumada a não agradar. A ouvir todo tipo de besteira na rua. Ser desrespeitada, sofrer preconceito.

Por isso, Léo foi acusado de se fazer de vítima e contar histórias tristes para tentar ganhar o programa com o voto do público. Sobre isso, Léo disse "Mas se eu não falar isso sobre a minha vida, vou falar o que? Infelizmente são essas as histórias que eu tenho pra contar." Não acho que Léo se fez de vítima. Ele é vítima. Dizer que ele "se faz de", é se negar a ouvir uma triste realidade, admitir que ela existe e refletir. Respeito as pessoas que não gostam de reality shows, mas olha, acho o máximo a gente ligar a TV em um programa de grande audiência e poder ouvir isso.

OBS.: Léo Áquilla fez Silvinho se perguntar durante o programa o por que dela não ter adotado um nome feminino. Eu notei que às vezes Léo fala de si no masculino, às vezes no feminino. Fiz o mesmo durante esse texto.

12.6.21

para quem detesta ação

Este texto foi originalmente publicado no blog Em Quantos no dia 28 de maio de 2012.

"Plano de Fuga" começa com um bandido (Mel Gibson) fugindo da polícia dos EUA após roubar uma boa quantia em dinheiro. Na fuga, ele ultrapassa a fronteira e acaba sendo preso pelos policiais mexicanos. A quem pertence o dinheiro roubado e quem afinal é o personagem principal são algumas das questões do filme. 

O personagem, que fará todas as suas ações usando o nome do atual marido de sua ex-esposa, fica em um presídio chamado de "El Pueblito", que funciona como uma cidade de presidiários. Não demora muito para o personagem perceber que há uma hierarquia naquela "cidade", onde os próprios bandidos possuem armas e alguns tem acesso à um estilo de vida consideravelmente melhor do que outros. Quem vai ajudar o personagem de Mel Gibson a compreender melhor o local é um menino que vive ali com a sua mãe. 

O fato de que o menino é protegido pelos criminosos mais poderosos de "El Pueblito" é mais um dos mistérios do filme. Assim, o filme nos apresenta uma dupla onde um pode ajudar o outro e onde nós, espectadores, ficamos tentando desvendar todos os segredos da história. Mas, cuidado, o filme não é um suspense! É um filme de ação!

Eu não sou fã desse gênero e acabo detestando 90% dos filmes de ação que eu assisto, mas desse eu até gostei. Não digo que eu veria outras vezes, mas o que eu quero dizer é que eu consegui ficar envolvida pela história até o seu final - final que, aliás, não é imprevisível. As cenas de ação, lógico, contam com todas as "mentiras" das quais esses filmes usam e abusam. Vale dizer, para quem detesta ação como eu, que o filme valeu muito mais pela sua história e todos os pontos que precisam ser explicados e resolvidos do que pela pela ação. 

Também vale dizer que Mel Gibson é ator, produtor e roteirista do filme. E que embora o filme se passe dentro de um presídio mergulhado em corrupção, no México, com todo um visual que nos parece sincero, o objetivo desse filme está longe de ser mostrar a realidade.

4.6.21

a menina do copo

Este texto foi originalmente publicado no blog Em Quantos, em 14 de maio de 2012.

"Então, minha pequena Amélie... Você não tem ossos de vidro. Pode levar umas pancadas da vida."

Quem já viu "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" sabe o que o pintor diz a respeito da menina que está com o copo. Todo ano ele pinta um quadro desses e nunca consegue captar a essência da menina do copo. Ele diz que ela está ali, mas não parece estar. Tem um olhar perdido, indecifrável.



Estar ali e não estar é a história da minha vida.

15.5.21

ligando uma coisa à outra

 Este texto foi originalmente publicado no blog Em Quantos no dia 7 de maio de 2012.

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Não existe tema mais atual do que a tecnologia e o quanto ela influencia nossas vidas. Acredito que a gente esteja em um momento onde somos bombardeados com um novo modelo de qualquer coisa que parece vinda diretamente dos anos 3000 para 2012 até que no dia seguinte esse "novo modelo" é substituído por outro. E assim a publicidade nos faz querer um celular/uma câmera digital/um laptop novo a cada dia. O mesmo ocorre com os assuntos nas redes sociais: hoje estamos comentando exaustivamente o assassinato brutal de uma criança de classe média e amanhã só falamos sobre a mulher que matou um cachorro à pauladas. Mas não é sobre isso que eu quero falar. O que me levou a escrever esse texto foi um conceito (ou uma ideia, sei lá) muito associado à internet: links.

Você resolve pesquisar na internet uma crítica sobre um filme que você quer muito ver e prefere se certificar antes se ele tem sido elogiado ou não. No site da crítica sobre o filme tem um link para uma outra página que fala sobre o ator principal desse filme. Nessa página há o link para várias matérias sobre ele, uma delas aborda sua experiência numa clínica de reabilitação. Você decide ler sobre isso e ao lado dessa matéria aparece um destaque sobre uma mulher que fugiu da reabilitação pela porta da frente e daí você se direciona para um vídeo do YouTube que mostra o flagrante de uma câmera interna de um assassino fugindo da cadeia e daí pra uma matéria de um telejornal sobre a utilidade das câmeras internas e de câmeras internas você acaba lendo uma entrevista de um BBB falando sobre a experiência de usar o banheiro sendo filmado. Então você começou querendo apenas saber se o filme era bom e terminou sabendo que algumas pessoas simplesmente não se importam em cagar diante das câmeras.

Da internet pra vida: ligando uma coisa à outra. Fui assistir Titanic e notei que Jack e Rose eram opostos em estilos de vida (rica e pobre) e personalidade (triste e feliz), mas que eles tinham um ponto em comum: as artes. Jack desenhava, Rose apreciava pinturas. Ela aparece colocando obras de Picasso em seu quarto. Pensei que Picasso é muito famoso hoje em dia e que eu não saberia reconhecer suas obras. Cheguei em casa e resolvi pesquisar algo a respeito dele.

Descobri que o seu nome é imenso:
Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso. 

Que ele tinha cara de pintor mesmo:


E que eu me vejo em algumas obras suas:
Les deux saltimbanques, 1901

Women Running on the Beach, 1922


Alguns links são bacanas, né?

11.5.21

os mais narcísicos

Este texto foi publicado no dia 30 de abril de 2012, no blog Em Quantos. Eu sempre gostei muito da história de Narciso. Não lembrava da existência desse texto e não lembro quem era as pessoas nas quais eu estava pensando ao escrever o texto. Eu sei que nessa época eu estava em relacionamento MUITO ABUSIVO. Sequer achei este texto um bom texto, mas é, com certeza, um bom registro do meu passado. 

Publico a seguir, exatamente da mesma forma que o original.

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Esse é o meu primeiro post aqui. Espero que gostem.

Uma história que sempre me atraiu muito (e quando digo sempre, quero dizer "desde a minha infância") é a história de Narciso. Havia escrito sobre esse mito em um antigo blog, mas o texto se perdeu e como recentemente tenho andado às voltas com pessoas narcísicas e feridas narcísicas, resolvi escrever sobre ele aqui. Não desconsidero que todos somos narcísicos. Aliás, acho isso uma grande verdade. Mas também acho verdade que existem pessoas que  enxergam a si mesmas. Não quero me prender à mitologia em si, pois conheço várias versões, mas vou me arriscar a falar algo sobre.

Narciso era um rapaz muito belo e desejado por todas as mulheres, das quais ele desdenhava. Uma dessas mulheres acabou definhando, entristecida com a rejeição de Narciso. Narciso, então, foi condenado a se apaixonar pela única pessoa que ele jamais poderia possuir: ele mesmo. E foi assim que, ao ver seu reflexo na água, ele se apaixonou pela bela imagem e, tentando alcançá-la, acabou se atirando no lago e morrendo afogado. No lugar de seu corpo, teria nascido a flor chamada Narciso, envergada como o próprio, admirado com o seu reflexo. 


Se essa história possui falhas ou está muito simplificada, pouco importa. O que eu quero, na verdade, é atentar para as pessoas narcísicas com as quais temos que conviver. Pessoas ao nosso redor - e às vezes próximas demais - que pensam apenas nelas mesmas, submetendo os outros às suas vontades e vaidades. E quando digo vontades e vaidades, não limito-me apenas à questão da aparência. Quantas não são as pessoas que cobram tanto dos outros quando julgam algo importante e querem todo o tipo de atenção e comemoração para as suas conquistas, mas menosprezam ou simplesmente não enxergam o que é importante para o outro? Quantas vezes não nos esforçamos para agradar a alguém e não vemos nenhum tipo de esforço da pessoa nesse sentido? Não é fazer por interesse esperando algo em troca, mas se esforçar num relacionamento (qualquer tipo de relacionamento, por mais impessoal que possa ser - inclusive em um trabalho) e esperar o mesmo tipo de empenho do outro, pois relacionamentos não são construídos com esforços de uma pessoa só. Estou falando sobre a compreensão de que uma troca espontânea é necessária. O problema em conviver com pessoas muito narcísicas é acabar definhando, como a jovem apaixonada por Narciso, que tanto dedicou seu amor e admiração à ele, sem obter nenhum tipo de retorno. Toda relação é uma troca. Se não há troca, melhor não haver relação.

5.3.20

a volta dos que não foram

🌞 Faz tempo que estou sentindo falta de manter um blog no estilo daqueles do início dos anos 2000. Eu gostaria de conseguir escrever diários - e talvez isso dependa só de prática - mas eu não tenho paciência. O blog, sendo público, não permite colocar pra fora tudo o que seria colocado num diário, mas ainda é um ótimo espaço para se guardar memória e é o que melhor funciona pra mim.

🌞 Tenho uma listinha de resenhas para escrever sobre filmes que vi "recentemente", como os excelentes Parasita, Coringa e Bacurau ou o chatinho It 2. Também vi alguns dramas: Oh My Ghost!, Caim e Abel e The Untamed (este último tomou conta do meu coração todinho). Tudo isso está salvo como rascunho, mas eu sinceramente não tenho ideia de quando vou de fato parar para escrever e é bem provável que eu acabe simplesmente não falando sobre alguns.

🌞 Toda essa relutância e incerteza envolvendo a escrita se relaciona com o processo de finalização do meu mestrado. Tem sido muito difícil, lento e chato esse processo final. Eu amo o meu tema de pesquisa e sou apaixonada pelas minhas fontes, mas o processo de produção da dissertação está desgastante. Esse mês eu preciso terminar essa escrita e cortar o cordão umbilical.

Voltarei aqui com este cordão cortado e um belo filho uma bela filha reluzindo por aí.

7.4.19

meu primeiro álbum de k-pop

[Data original do texto: 14/08/2018]

Num passado longínquo conhecido como o ano de 2003, eu, no auge dos meus treze anos, estava baixando umas músicas na internet, começando a amar os Beatles. Eu lia muitos blogs na época e através deles fui conhecendo artistas e buscando mais sobre eles. Foi assim que eu conheci esse primórdio de boy band chamava The Beatles, mas foi também assim que eu conheci uma cantora coreana chamada BoA. Ouvia algumas músicas dela, achava diferente a escrita do nome com esse "A" maiúsculo ao final e, claro, o próprio significado da palavra "boa" no Brasil, que ajudava a soar familiar e até engraçado. Ressaltando que eu tinha treze anos, é basicamente dessas coisas que eu lembro.

Quatro anos depois, minha irmã mais velha estava conhecendo uma boy band coreana chamada DBSK (ou TVXQ). Ela disse que se tivesse curtido a BoA comigo, lá em 2003, teria conhecido o DBSK em seu debut (sua estreia). Mas, tudo bem, lá estávamos nós ouvindo DBSK por volta de 2007/2008, pois não demorou muito para eu gostar também. Até hoje é a minha boy band coreana favorita e uma das melhores do mundo pra mim.

O DBSK acabou se separando por uma briga com a agência, três integrantes quiseram sair e processar a gravadora e dois quiseram continuar (do the math, o grupo tinha cinco integrantes). Os três que saíram formaram o JYJ e eu acabei não acompanhando mais*. Em 2011, o Junsu fez um show solo em um espaço bem pequeno em São Paulo e eu estava lá. A dupla restante vem apresentando trabalhos primorosos, um nível de qualidade artística que faz jus ao pop**.


Apesar de ter sido eu a ouvir a BoA em 2003, quem claramente é mais envolvida com música aqui em casa é a minha irmã. Ela escuta uma série de boy bands e girl bands coreanas, assim como artistas mais alternativos. Eventualmente, algo me chama mais a atenção e eu começo a gostar também. Mas, com o meu "recente" amorzinho, as coisas não aconteceram assim tão naturalmente.

Eu comecei a dar alguma atenção ao BTS após muita insistência da minha irmã. Ano passado ela foi a um show dos meninos em São Paulo e eu não podia estar me importando menos com tudo isso. A primeira vez que eu lembro de ter sentado para assistir ao BTS foi na premiação da Billboard, ano passado, em que eles foram receber o prêmio de "Top Social Artist". Minha irmã já estava naquela expectativa, acompanhando o tapete vermelho e eu parei displicentemente para assistir. A gritaria das fãs fazia os repórteres questionarem se não eram os novos Beatles. Resolvi continuar assistindo porque vi que a Vanessa Hudgens ia apresentar, pude ver a estreia solo da Camila Cabello (já amada desde os tempos de X-Factor e que também vem fazendo um trabalho pop muito bom) e a apresentação de Miley Cyrus com "Malibu". E no meio de todas essas mulheres artistas, eu acabei vendo uma coisa ou outra dos sete meninos do BTS e simpatizando com eles.

A minha irmã, que já vinha insistindo nessa tecla, percebeu ali a chance de me fazer gostar do grupo (sim, rolou todo um empenho e estratégia). Acabei começando a assistir uns episódios do BTS Run, que eles lançavam semanalmente (agora em hiatus) e quando vi eu estava verdadeiramente gostando dos rapazes. Ou seja, eu não comecei a gostar de BTS pela música, mas pelas personalidades, pela interação entre eles e toda a graça que eu vi nisso (o BTS Run é um programa dinâmico e bem humorado). Depois foi que eu comecei a prestar atenção nas músicas e ver ali mais do pop que eu gosto. A primeira música que eu lembro de ter amado e que até hoje é o meu vídeo clipe favorito, é o solo do Jimin em "Serendipity":


Dos solos recentes, eu também gosto muito do "Singularity", do Taehyung:


Bom, com todo esse caminho percorrido no k-pop, eu nunca tinha adquirido um álbum de nenhum artista (porém tentada com a beleza das imagens em "Keep your head down" do DBSK). E da mesma forma quase displicente que eu me tornei fã de BTS, também foi assim que eu adquiri meu primeiro álbum. Minha irmã (de novo, ela) comprou dois álbuns por causa dos cards (cada álbum vem com um card de algum integrante do grupo, em algum photoshoot, e ela coleciona os cards do Yoongi. Ela compra os álbuns e quando vem cards de outros integrantes, ela revende ou troca pelo site feices). Só que os dois álbuns vieram com o mesmo card do Taehyung, que é o meu bias (vulgo "favorito", nessa coisa divertida que é dividir integrantes de boy bands como pedaços de pizza***). Antes dela revender, perguntou se por acaso eu não queria ficar. E eu fiquei. Ou seja, o álbum caiu no meu colo. Meu primeiro álbum de K-pop! Yay!

*Muitas fãs tomaram partido nessa briga, eu não. Sei pouco sobre o que aconteceu e só não acompanhei o JYJ porque não me chamou atenção mesmo. Mas, como eu disse, fui ao show solo do Junsu em 2011.
**Como o gênero pop está relacionado com uma cultura de massa e a cultura de massa é vista como uma espécie de subcultura, muita gente parte do princípio de que a música pop é sem qualidade e desmerece não só ótimos artistas, como a capacidade crítica das fãs. E digo das fãs (no feminino), porque aí tem outro aspecto que alimenta o preconceito. O público é majoritariamente feminino e o pop é bem difundido entre adolescentes. A nossa sociedade coloca o universo feminino, sobretudo a caricatura do universo adolescente feminino como algo inferior. Novamente, o pop fica neste lugar de subcultura. Tudo bullshit, claro. Além disso, vale citar todo o esteriótipo de piada no qual a cultura ocidental coloca a população do dito "Extremo Oriente" (Japão, China, Coreia etc), o que contribui pra todas as piadinhas prontas (e preconceituosas) que a gente vê rolando por aí. Com tudo isso, pra muita gente, o K-pop está num nível em que se deveria ter vergonha de assumir gostar. As pessoas são bestas e não é de hoje.
***Vi essa analogia num programa da MTV com a Marina Person, falando sobre Backstreet Boys, se não me engano. Coisa antiga, também. Mas nunca esqueci pois é isso mesmo. E é parte da graça.

Como eu só postei solos do BTS, fiquem com essa música que sempre me dá vontade de chorar:



6.4.19

gossip girl

[Data original do texto: 09/07/2017]

Este texto contém spoilers.

Não assisti Gossip Girl no período em que a série foi ao ar e, sinceramente, foi uma surpresa saber que a série acabou em 2012, pois achei relativamente recente. Pra mim, GG tinha acabado há mais tempo. Também não sabia mais da série além da história de que a Serena, a it girl local, tinha voltado após um período sumida e que isso ameaçava de alguma forma a Blair, que era também sua amiga. Os outros personagens além de Blair e Serena e demais detalhes foram todos novos pra mim. O que eu achei ótimo.

Uma coisa que me aborreceu a respeito dessa série é que a história em si é bem boa (nunca li os livros, ok?) e poderia ter rumos tão mais interessantes, mas manteve-se rasa e repetitiva ao longo das seis temporadas. A ideia do blog comandado por uma pessoa anônima que acaba por receber informações dos outros pra alimentar seu conteúdo, a família do Brooklyn com os filhos sendo educados numa escola de elite, o Dan como outsider e a Jen se esforçando pra ser incluída (e sabendo jogar o jogo, sem ser uma coitada), o conflito de amizade e rivalidade da Blair e Serena, os adultos hipócritas, o fato de que a história se passa (inicialmente) no ensino médio... Céus, tudo isso me pareceu muito bom. Mas foi conduzido de uma forma muito ruim.

Quando digo rasa penso nos personagens que não crescem ao longo da série. Eles começam no início do ensino médio e ao final da série estão empregados e casando (a faculdade se perde durante a história, eles frequentam durante uma temporada e depois isso é deixado de lado), mas eles simplesmente não crescem de forma alguma, os comportamentos que tem na primeira temporada são os mesmos da última e suas vidas giram em torno das mesmas questões. Quando eu penso isso, eu lembro de Friends (uma série ótima, vale dizer) onde a única personagem que eu vi crescer foi a Rachel. Ela era aquela patricinha bancada pelo pai, que ia casar com um cara rico e ter um futuro certo, mas abandonou tudo isso e foi morar sozinha, trabalhando como garçonete e depois construiu sua carreira na área que queria, a de moda. E a gente vê uma diferença entre a Rachel do início da série e a Rachel do final, entendem? Se em Friends esse crescimento só acontece com a Rachel, em GG não acontece com ninguém.

Também penso em rasa quando penso a própria questão da Gossip Girl. Por vezes ela mais parece narradora da história do que um elemento relevante no desenrolar das coisas. Ao final da série, os dramas em torno do malvado pai do Chuck e de seu relacionamento com a Blair ofuscam o mistério sobre quem é a Gossip Girl e essa questão sequer tem peso sobre o espectador durante as temporadas. A GG deveria ter muito mais capacidade de intervenção na história pra sua identidade se tornar algo realmente relevante.

Sobre ser repetitiva, a gente pode pensar na quantidade de vezes em que a Georgina volta para a série e é mandada para longe. Ou a Jenny Humphrey, que se deslumbra querendo fazer parte do universo da elite e passa por cima dos outros pra isso e depois se redime e recupera os valores da sua família, pra então se deslumbrar de novo. E Serena, que começa a série voltando de um sumiço e viaja pra longe tantas outras vezes para se reconstruir. Também o Nate, sempre se envolvendo com uma mulher que não é quem diz ser. A sensação é de assistir as mesmas coisas várias vezes. Testa a nossa paciência. Até ressuscitar o Bart eles ressuscitam e a Lily retorna à mesma história do início da série, para então ficar viúva de novo! Do mesmo cara! É o auge da repetição.

A gente perde personagens que podiam ser mais complexas, como a Jenny, a Vanessa e o Eric. A Little J sai da série ainda perdida nos seus ciclos de rebeldia e redenção e quando reaparece em um ou outro episódio é metida nas mesmas ladainhas. Lamentei muito pela personagem pois na primeira temporada ela tinha muita força, antes mesmo da Blair sobressair. O Eric começa num drama de tentativa de suicídio que fica esquecido ao longo dos episódios e mais pra frente descobre-se que o personagem é gay, o que segue sem maiores destaques dentro da história. Eu gostava de acompanhar a amizade entre o Eric e a Jenny, que parecem outra versão de Blair e Serena, que se fazem muito mal e se amam, mas a gente acaba por perder os dois personagens sem eles terem de fato contado alguma história. A Vanessa é uma que muda ao longo das temporadas, mas pra pior. Eles descaracterizam a personagem e quando ela sai da história sequer é amiga do Dan e parece uma pessoa muito ruim, o que certamente não era a proposta para ela (ainda que ela seja chata desde o início).

O Dan é outro que poderia ter sido melhor explorado ao longo da série, passando essa coisa do cara que é de fora daquela realidade e aparentemente pé no chão, mas que no fundo queria fazer parte daquele universo e esse desejo dele é maior do que se pode imaginar. O fato dele ser a GG me faz pensar como soa psicopata a relação dele com a Serena porque ele era apaixonado pela mulher e aí foi criar um blog onde ele domina a narrativa sobre a vida dela e essa narrativa é extremamente negativa e prejudicial à ela (e seus amigos). Uma obsessão.

Quem acaba por levar a série nas costas é a Blair. A personagem tem toda aquela imagem da menina romântica e sonhadora que quer viver um conto de fadas, é apaixonada por clássicos do cinema (Bonequinha de Luxo), gosta de ir ao lago alimentar os patos e é carente de afeto da família, mas é ambiciosa no pior sentido da palavra e não se envergonha de suas maldades. O humor da personagem às vezes é caricato demais e me deixava desconfortável assistindo, mas na maior parte do tempo é agradável e eu acabei me apegando e torcendo por ela. Tudo do universo de Blair ganha espaço na série, como o Chuck e a Dorota. O relacionamento dela com o Chuck rouba a cena diante das demais tramas, de forma que ao final isso é tudo que importa e a narrativa gira em torno dessa questão. A questão maior do que quem é a GG, é como o Chuck vai derrotar seu pai para poder viver com a Blair (num pacto que não faz o menor sentido). O figurino da Blair é o mais marcante da série, não só pelas faixinhas no cabelo (a marca da personagem), mas também pelas saias, vestidos e laços que nos guiam a respeito de sua personalidade.

Uma coisa legal é a representação de Blair como uma espécie de Audrey Hepburn e Serena como Marilyn Monroe. Falando nessas duas, um episódio que eu gostei muito é o penúltimo da segunda temporada. A história corre em torno dos sonhos de Blair para o dia do baile de formatura da escola. Aparentemente, ela vinha planejando sua formatura desde sempre em todos os detalhes, desde o seu par (Nate), como seria o vestido até ser coroada rainha do baile. Quem se esforça por trás do holofotes para que tudo saia conforme o planejado é Chuck. Já apaixonada por ele, ao longo da comemoração Blair percebe que ainda que tudo corra como desejou, não era mais aquilo o que queria para si mesma. Achei maravilhosa as cenas finais, quando Blair e Serena estão sentadas na escadaria dividindo seus conflitos e Serena fala que está acompanhada da pessoa que queria, sua melhor amiga. Esse desfecho com as duas juntas, bastando-se uma à outra, transformou esse episódio em um dos meus favoritos. Infelizmente, ao longo da série, Serena torna-se insuportável e os personagens (todos) se fazem tão mal que um final feliz deixa de parecer plausível.

Acho que a série marcou algumas pessoas que a acompanharam enquanto eram adolescentes, pelo que li por aí. Gossip Girl é mesmo ruim em muitos sentidos e serviu apenas para me distrair num momento em que eu precisava ver algo que não exigisse muita concentração. Terminei de assistir com a sensação de que poderia ter sido muito melhor. Uma pena.

5.4.19

era o hotel cambridge

[Data original do texto: 25/04/2017]

Assisti "Era o Hotel Cambridge" no Festival de Cinema de Tiradentes em janeiro deste ano. Carmen Silva, líder da Frente de Luta pela Moradia (FLM), que interpreta a si mesma no filme, estava presente e emocionada com esta obra que mistura ficção e realidade. O impacto do filme sobre mim foi tanto que, de volta ao Rio, eu fui mais duas vezes ao cinema assistí-lo. Além da importância de sua direção feminina (Eliane Caffé), a relevância do filme está em sua capacidade de gerar empatia no espectador, especialmente em tempos de avanço de um discurso de extrema direita.

O abandonado Hotel Cambridge foi ocupado por sem-tetos e refugiados e a história do filme se passa sob a ameaça de reintegração de posse. Ao abordar a ocupação de espaços urbanos abandonados e o preconceito e descaso em relação aos refugiados, o filme humaniza as personagens mostrando seu cotidiano. Apesar dos inevitáveis conflitos, a convivência entre os moradores é pautada em uma solidariedade característica de espaços onde, por se ter pouco, a colaboração é necessária.

O filme não erra ao trazer para sua história o mundo online, quando os moradores se organizam para publicar conteúdo a fim de divulgar sua luta e realidade. É através dos comentários de ódio lidos por Apolo (José Dumont) que vemos o senso comum que rotula os movimentos sociais e as pessoas mais prejudicadas pela desigualdade social de "vagabundos". Fica evidente o abismo existente entre quem são realmente aquelas pessoas e a forma como a sociedade as vê. E aí entra um ponto importante: a reivindicação por moradia e a luta social e política incomodam ao tornar visíveis aqueles que a nossa lógica de sociedade insiste em invisibilizar.

3.4.19

battle royale

[Data original do texto: 23/04/2017]


Battle Royale é uma obra japonesa escrita por Koushin Takami e publicada no final da década de 1990. Trata-se de um jogo de matança promovido por um governo totalitário japonês, que anualmente escolhe uma turma de ensino fundamental (mais especificamente de nono ano) e a coloca numa ilha, obrigando os alunos a se matarem até que haja apenas um sobrevivente. Cada estudante recebe um kit de sobrevivência e cada kit possui um tipo diferente de arma, desde um picador de gelo até uma metralhadora -  o que vai tornar as mortes bastante violentas. Além disso, cada estudante possui uma coleira rastreadora em seu pescoço, a qual explodirá caso o aluno tente fugir, retirar a coleira ou permanecer em um quadrante proibido. Proibir a permanência de estudantes em determinados quadrantes tem como objetivo forçar a locomoção dos jovens e, consequentemente, o encontro entre eles.

O livro começa confuso ao apresentar os 42 estudantes que estão dentro de um ônibus acreditando estar a caminho de uma excursão escolar, mas logo a história torna-se viciante. Um gás é liberado dentro do veículo, deixando os alunos desacordados até que estes se encontrem em uma sala de aula para então receberem de um membro do governo - Sakamochi - a notícia de que são os selecionados para a batalha daquele ano. Sakamochi é o responsável pela batalha e é também quem dá, com crueldade e sarcasmo, os avisos sobre estudantes mortos e quadrantes proibidos.

"Battle Royale" traz como personagem principal Shuya Nanahara, um jovem com comportamentos subversivos, por dedicar-se à guitarra elétrica e ao rock, estilo musical proibido pela República da Grande Ásia Oriental. Shuya cresceu na Casa de Caridade, uma instituição católica que abrigava órfãos e crianças que por alguma razão não podiam viver com os pais, e lá fez seu melhor amigo Yoshitoki. É a partir de seu senso de amizade e de sua insatisfação com o governo que vamos sendo guiados pelo universo de "Battle Royale".

A história do governo parece ser o pretexto para que seja descrita a violenta batalha entre os estudantes, sem poupar o leitor dos detalhes. As histórias e personalidades de cada um dos alunos da Escola Shiroiwa somadas à uma dose de romance dão profundidade aos personagens e um pouco de humanidade num contexto desumano. Colocar pessoas tão jovens quanto estudantes do ensino fundamental em uma ilha para que se matem e contemplar ao final o único sobrevivente serve para reforçar na população o sentimento de desconfiança e assim evitar sua união contra o governo. "Battle Royale" fez estrondoso sucesso no Japão, tendo sido adaptado para o formato de filme, anime e mangá.

2.4.19

13 reasons why

[Data original do texto: 12/04/2017]

Este texto contém spoilers.


Acho válido pensar 13 Reasons Why como um olhar sobre a cultura do estupro, não negando que o debate central seja o suicídio mas conectando os acontecimentos para enxergar a ligação direta entre uma sociedade cuja cultura é machista e a morte de mulheres. Aí a gente pode refletir como os 13 motivos seriam outros não fosse a personagem principal ser do sexo feminino.

O entendimento de uma cultura do estupro parte da compreensão de que atitudes normalizadas em nosso dia a dia são parte da engrenagem de um sistema cujo produto é a violência contra a mulher. Por isso Hannah Baker começa seus motivos com uma foto num escorrega aonde sua calcinha aparece ou o seu nome numa lista feita por um rapaz de sua turma de ensino médio que atribui à ela o título de melhor traseiro e tem em seus últimos motivos o estupro que presencia e o estupro do qual é vítima. Uma vez que já sabemos estar vendo a história de uma adolescente que decidiu se matar, os primeiros motivos de Hannah tendem a parecer besteiras aos olhos daqueles que ainda não entenderam a engrenagem. Essa condução da história, que ganha profundidade ao longo dos episódios, foi o aspecto que me levou a fazer o link com a questão da cultura do estupro.

Sobre a polêmica que surgiu em torno da série não ser indicada para pessoas com depressão, eu discordo. Achei incapacitante ouvir categoricamente que eu não deveria ver a série por conta disso. Eu não estou desprovida da capacidade de decidir assistir ou não a um conteúdo por conta da minha depressão e não me sinto confortável quando vejo essa capacidade retirada de mim - e aqui vale dizer que é comum sermos colocados nesse lugar de passividade. Outro ponto é que ainda que entendamos o conceito de gatilho, a gente precisa ter cuidado para não cair na conclusão rasa de que é uma série o que leva uma pessoa a se matar. Não é, assim como o estupro não é cometido por alguém que destoa da realidade. Ambos os casos são produtos de uma lógica de sociedade que precisa ser repensada. E veja bem, colocar esses pingos no i's é diferente de recomendar a série às pessoas. Talvez o maior perigo se pensarmos em uma influência no espectador esteja no caráter punitivo das fitas de Hannah, uma vez que o público alvo da série é jovem.

Apesar de alguns personagens esteriotipados e do perceptível esticamento da história, a série torna-se importante ao trazer a questão do suicídio inserida num debate sobre o olhar negligente que muitas vezes temos para o período da adolescência. Joy Division na trilha sonora teve um efeito especial sobre mim, pois foi parte do que eu ouvia no meu ensino médio. 13 Reasons Why nos mostra uma jovem cuja narrativa de sua vida lhe é tomada e sem enxergar as possibilidades de retomá-la, a personagem acaba recorrendo ao suicídio, o que jamais deveria ser uma opção.

15.12.16

a bruxa

[Data original do texto: 22/03/2016]

Vi o filme "A Bruxa" no cinema, amei, sou amante de filmes de terror e sim, discordo de quem acha que "A Bruxa" não é filme de terror. Pra mim é tipo "Babadook", só que tratando de um outro tempo, um terror vivido pelas mulheres, compartilhado e compreendido por mim enquanto espectadora. O filme me fez pensar em muitas coisas que estudei na faculdade (de História). Dividi em tópicos e, ao final de cada, trouxe os autores e autoras que embasaram a discussão.

Modelo do sexo único
Todo discurso médico é produzido por uma sociedade, sendo assim, (1) ele só pode ser analisado segundo os valores e a lógica de seu tempo e lugar e (2) ele também é uma construção social. Hoje, nós trabalhamos com o conceito dos dois sexos. No período moderno, o modelo era o do sexo único. Segundo esse modelo, vigente nos séculos XVI e XVII, o aparelho reprodutor feminino não era diferente em essência do masculino, mas sim em grau. O órgão da mulher era interno, estando um estágio abaixo do homem, cujo órgão se desenvolveu completamente, tornando-se externo. A metáfora para o órgão feminino é, então, a de um pão que não cozinhou por completo, enquanto o homem sim. Esse discurso reforça uma visão social de superioridade masculina. O homem está biologicamente num patamar de perfeição. As características associadas ao homem recebem uma valorização simbólica positiva.

Leitura: A discussão é, obviamente, mais aprofundada, feita por LAQUEUR ("Inventando o sexo"), mas você também pode ler a SCOTT ("Gênero, uma categoria útil de análise histórica") se quiser uma leitura que distingua sexo e gênero.

Mulheres como suspeitas e a culpa
Homens foram perseguidos pela Inquisição, mas a perseguição às mulheres se dava de forma mais intensa. Antes de pensarmos nas mulheres mortas na fogueira, a gente pode pensar numa Inquisição e numa visão religiosa que coloca mulheres como suspeitas. Quando você associa ao imaginário da bruxa elementos como vassouras, poções, a ideia de curandeira, o que está sendo usado são elementos corriqueiros na vida das mulheres da época. Além disso, tem-se uma maior parte de mulheres que não eram queimadas, mas obrigadas a cumprir uma pena, utilizando um hábito penitencial em público, o que identificava a condenada e representava uma humilhação que marcava a família e os descendentes. O uso do hábito podia se dar por meses ou anos.

Pensar o que acontecia para além da condenação de mulheres à fogueira, não é diminuir o que ocorria, mas sim entender um contexto que leva mulheres a serem queimadas, um contexto misógino onde a figura feminina é vista com muita suspeita e onde a Inquisição tem como forte objetivo o reconhecimento da culpa (que acaba sendo um sentimento de culpa feminino).

Leitura: 
- BETHENCOURT F., "O imaginário da magia".
- A autora M. KING ("A mulher no Renascimento") trata a Inquisição como uma guerra contra as mulheres.

Desconstrução de uma visão simplista
É simplista a visão de que mulheres procuravam a vida religiosa no claustro por buscarem uma perfeição religiosa. A complexidade é maior. (1) Existem histórias de fugas, (2) muitas entravam no convento ainda crianças de forma que não tinham outras experiências ou visões de vida para além daquela do convento, (3) colocar uma filha para virar freira era um jogo de interesses tal como o casamento arranjado, (4) algumas mulheres se apropriavam dos esteriótipos negativos aplicados à elas e os usavam a seu favor, para se fazerem reconhecidas na Igreja (é o caso de Santa Teresa). Ou seja, acreditar unicamente numa vocação religiosa dessas mulheres e ainda, numa vontade própria, além de desconsiderar a complexidade das relações sociais e abraçar um esteriótipo de gênero, coloca essas mulheres numa posição de passividade o que retira delas o caráter de também agentes da história.

No período moderno, o estado considerado perfeito para a mulher era o eclesiástico. A mulher freira e a mulher casada eram respeitadas na sociedade. Assim, se tornar freira era mais uma decisão familiar para reconhecimento social do que uma vocação religiosa que a mulher demonstrasse ou desejasse. Após o Concílio de Trento, a Igreja passa a exigir que a mulher só entre para os conventos por vocação religiosa. Para isso, elas assinavam um termo alegando que estavam lá por vontade própria. Logicamente, isto não impedia que a mulher fosse forçada pela família a assinar.

Leitura: 
- KESSEL, E. "Virgens e mães entre o céu e a terra".
- LAVEN, M. "Virgens de Veneza".
- WEBER, A. "Retórica da feminilidade".

Santas ou bruxas?
As narrativas hagiográficas exploram muito essa questão de vocação. Em diferentes narrativas tem-se elementos semelhantes que descrevem a vida dessas santas, como experiências de visões ou milagres já na infância (predestinação) e a descrição do corpo com faces rosadas após a morte (superação da condição humana de mortal). Fato relevante é que nas narrativas sobre os homens o testemunho de fé se sobrepõe à questão da castidade, enquanto a santidade de mulheres aparece associada à sua virgindade.

A narrativa de vida das santas tinha uma função de servir de estímulo e exemplo para outras freiras, para que se pautem naquele modo de vida*. As experiências místicas em vida são semelhantes: as experiências de visões, o martírio ao corpo**. Era comum que fiéis, inclusive da elite e mesmo da realeza recorressem à Igreja institucional, mas não obtendo resultados, buscassem pelo serviços de feitiçaria. O que se vê que caracteriza mulheres com práticas e experiências semelhantes em santas ou bruxas era a sua classe social; sobretudo mulheres pobres eram condenadas como bruxas pela Inquisição, enquanto semelhantes experiências podiam colocar mulheres da elite na categoria de santas. Características de uma bruxa: mulher e pobre.

*Lembrando que na época, a maioria dos fiéis era analfabeta e a mulher no claustro lia e escrevia, o que já a colocava um patamar acima das demais.

**O martírio ao corpo vinha da vivência de castigos que se aproximavam da Paixão de Cristo (como os açoites). Autoflagelo, jejuns prolongados, alimentar-se apenas de alimentos podres, enfim, tudo o que castigava o corpo fazia bem ao espírito. Da mesma forma, o que favorecia ou agradava ao corpo fazia mal ao espírito. Como dito, com o corpo maltratado e as experiências relatadas de visões, muitas vezes a linha tênue que separava a mulher possuída pelo demônio e queimada na fogueira da santa estava em sua origem social.

Leitura: 
- ALGRANTI, L. "Conventos e recolhimentos".
- KESSEL, E. "Virgens e mães entre o céu e a terra".
- KING, M. "A mulher no Renascimento".
- SÁNCHEZ LORA, J. "Mujeres, conventos y formas de la religiosidad barroca".

star wars: o despertar da força

[Data original do texto: 24/12/15]

Sei que existe o Teste de Bechdel, que propõe observar nos filmes se existe algo como: duas mulheres que tenham nomes e conversem entre si sobre algo que não seja homens. O interessante em relação à esse teste e que explica a difusão que ele ganhou é que muitos filmes não se encaixam nesse quesito que parece bastante simples. Isso nos faz pensar em como as mulheres são retratadas nas mídias e o que isso diz mais profundamente sobre a nossa sociedade. Bom, aqui, de uma forma bem livre, eu queria propor três categorias: mulher no protagonismo da história, mulher não objetificada e história escrita por mulher.

Partindo daí, eu pensei nas franquias que marcaram a minha vida. Antes de Star Wars, com certeza, vem Harry Potter. Minha personagem favorita era (e é) a Hermione. Fundamental na história, mas sem o protagonismo. Ainda assim, a autora da história é uma mulher e Hermione não é uma personagem objetificada.

Resolvi assistir Star Wars quando eu tinha quinze anos e queria ver o episódio III no cinema. Bom, pra isso, eu precisava assistir aos filmes anteriores e lá fui eu. Amei a saga, e olhar criticamente não tem necessariamente a ver com não gostar. Star Wars não tem pra mim o significado que teve Harry Potter e nem que teria, mais tarde, Jogos Vorazes. Mas ainda assim, eu gosto.

Eu li um texto, com o qual concordei, sobre a objetificação da princesa Leia no episódio VI, quando ela aparece vestida de escrava, com uma roupa sexy mostrando bastante do corpo. O problema em si não é apenas essa aparição dela em um momento da história, mas a força que essa imagem teve pelo sucesso com o público masculino (claro que existia essa intenção). Leia escrava iria se sobrepôr à Leia diplomata, com seu vestido branco. O texto comenta sobre uma promoção dos livros de Star Wars no Brasil, na Comic Con Experience de 2014. Lá estavam atores e atrizes fantasiados de personagens da saga e coube às atrizes que representavam a princesa, usarem a tal roupa de escrava (e não o mais característico -- ou deveria ser -- vestido longo branco). Os caras que iam lá tirar fotos queriam logo segurar a corrente em torno do pescoço das atrizes, sem sequer pedirem permissão pra isso.

Se vocês lerem -- o que eu recomendo que não façam, por uma questão de fé na humanidade -- os comentários nos artigos que comentam a possível abolição da versão de Leia escrava pela Disney, vocês entendem rapidinho. Em resumo, são comentários dizendo que eles querem ver é mulher assim mesmo, piadas machistas, trocadilhos infelizes com sabre de luz e imagens de mais mulheres objetificadas. A Natália Bridi fala nesse texto no site do Omelete algo bem simples (e ainda foi super contestada): no contexto da história, Leia foi vestida daquela forma para entreter o vilão, numa clara humilhação. Agora digo eu: essa submissão serve ao imaginário masculino. E mais, é retirado de seu contexto quando a menina vestida de Leia para promoção dos livros no evento precisa vestir a roupa de escrava. Sinceramente, falta sensibilidade àqueles que não perceberem aí a metáfora perfeita. Novamente, nos comentários, Natália é acusada de mimimi. Por que todos esses argumentos inteligentes e críticos das mulheres são reduzidos a mimimi e consequentemente deslegitimados e ridicularizados, enquanto se ignora o verdadeiro mimimi dos homens reivindicando pela roupa sexy?

Leia é uma mulher forte e com importância política, mas não é protagonista (o que coube à Luke), é objetificada e é personagem de uma história escrita por um homem. Rey surge agora como uma mulher forte e protagonista e, ao menos durante este episódio VII, não objetificada. Rey surge encaixada em uma série de personagens femininas assim, num atendimento da indústria do entretenimento à difusão atual do discurso feminista. Ainda que distorcida e romantizada para se tornar mais palatável, a luta das mulheres vem ganhando alcance inegável, muito por causa das redes sociais que permitem, ainda que com todas as suas limitações, que se rompa com o narrador único, geralmente o homem branco e hétero, e dá o protagonismo à minorias em seu discursos quando elas, enfim, falam por si mesmas. (Cês podem ler isso direitinho nessa entrevista aqui.)

Em Star Wars: O despertar da força, em nítida semelhança com o episódio IV, Rey começa a sua aventura com BB-8, da mesma forma que começava Luke com R2D2. Num contexto cerca de 30 anos após O Retorno de Jedi, o piloto Poe foi enviado pela Resistência ao planeta Jakku, atrás de um mapa que acreditam levar ao paradeiro de Luke, agora desaparecido. Quando a Primeira Ordem ataca o planeta, Poe coloca o mapa em seu droide BB-8, que é encontrado por Rey, uma catadora de lixo que troca o que encontra por comida. E logicamente, se Rey está com o droide valioso, será perseguida pelos vilões da história. Quem acompanha Rey nesse percurso é Finn. E aí temos a dupla principal: uma mulher e um homem negro, bem diferente de Leia e Luke, certo? O filme é bom como todos os outros seis. Os meus preferidos são os desfechos (episódios III e VI) e por isso mesmo considero relevante o fato de ter gostado tanto desse início de uma nova série.

Por fim, como citei Jogos Vorazes lá em cima, Katniss Everdeen é, enfim, uma protagonista feminina, não objetificada, em história escrita por uma mulher. Ou seja, Star Wars precisava de Rey. Figth like a girl, Rey.

Textos que cito nesse post:

Recomendo as leituras! ;)

30.8.12

Rock of Ages

Rock dos anos 80, Tom Cruise e Russell Brand são três coisas que não despertam o meu interesse. Além disso, quando vi o cartaz do filme, achei a produção bastante caricata e o excesso de glamour passado na imagem contribuiu mais para uma sensação de que o filme seria superficial do que exatamente rock’n roll. Por conta de todas essas coisas eu não estava animada para assistir ao filme, mas todo o estardalhaço em torno da sua estreia fez com que eu decidisse ir lá dar uma conferida. É claro que eu estou falando desse jeito porque isso aqui é uma opinião pessoal. Li muitas críticas negativas a respeito do filme, mas também vi muita gente empolgada com as músicas e com o elenco.


O filme, uma adaptação de um musical da Broadway, conta a história de uma menina do interior chamada Sherrie (Julliane Hough), que decide ir para Los Angeles tentar a sorte e seguir seu sonho com uma carreira de cantora. Chegando lá, ela conhece Drew (Diego Bonneta), um jovem que trabalha em um bar que toca rock e que logo arruma para a menina um emprego no tal lugar. Fato é que o bar/boate está correndo o risco de ter suas portas fechadas e conta com o grande show do astro do rock Stacee Jax (Tom Cruise) para que isso não ocorra. No entanto, Stacee é um artista bastante problemático e seu empresário (Paul Giammati \o/) é um pilantra. Para completar, a mulher do prefeito (Catherine Zeta-Jones, linda!) quer acabar com a imoralidade que ela acredita estar associada ao rock, à boate e, sobretudo, à figura de Stacee Jax. Toda essa história é embalada por sucessos dos anos 80 e conta com brincadeiras em torno do esteriótipo das estrelas e do cenário da época.

Achei o musical ruim em dois aspectos que são muito fortes nele: a comédia e o estilo das músicas. As cenas engraçadas, geralmente em torno de Stacee Jax e do personagem do Russell Brand, não são o tipo de comédia que eu costumo achar divertida. É bobo e exagerado em muitos aspectos. Já as músicas cantadas pelo casal principal viraram música pop, de forma que a história de amor dos dois, quando cantada, não parece muito diferente da de Troy e Gabriella no filme High School Musical. A diferença é que deste último eu gosto.